s.f. (...) indicação de que alguém "encontrou finalmente a última peça do quebra-cabeças e agora consegue ver a imagem completa".

(Psiu: Sobre aquela falta de ideias)

17.12.13

Disritmo.

Seus olhos oblíquos encontraram-se no âmbar.

Acabara, a guria, de chegar das longínquas províncias de Caymmi, e era uma enorme interrogação – não tanto, dada a sua esqualidez. Emanava uma enorme ironia de sua superfície lívida, dado o determinismo escroto o qual nosso senso comum adota.

[Confessaria posteriormente que essa sensação de icógnita a interessava, de fato. Mas seu orgulho não a permite admitir porcaria nenhuma.

Logo logo, com toques de destilados e uma embriaguez até poética, ela englobou a guria em seu mundo, suas fantasias. Estava, agora, pertencente à sua ficção.

Contudo a menina, que de tão desengonçada nem saberia como circular dentre o seu mundo, sempre fugia à qualquer oportunidade de segurar sua mão.

Isso a machucava muito; mas a guria sabia que, segurando essa mão, as feridas daquele mundo inventado acabariam a machucando.

Sempre contava para a guria, como uma avó contando carochices pra neta, suas desventuras – insanas àqueles que nada se aventuram – e todas acabavam com mortes após à epifania, seja a morte literal ou a monogamia (que em tempos atuais é quase a mesma coisa).

Tinha a encarnação da Elis, com o espírito tão livre quanto seus cabelos picotados e coloridos. Levava-a a todos os tipos de insanidades, coisas que só se reportam em filmes adolescentes da década de oitenta.

Tinha o narcisista sádico, dado de uma natureza mórbida (Byroniana, talvez?), que a manipulava com dominação e dor. Nunca fora tão feliz quanto naqueles tempos!

Tinha o adorável cafajeste, desses que se recorta de comédias românticas, que a fez sorrir e chorar durante a agridoce distância, determinada definitivamente com uma morte eminente.

A guria não sabia se a morte ocorreu de fato ou se a morte foi psicológica; se todas essas personas, tão fortes e fragilmente construídas não saíram dessa grande obra de ficção que era a cabeça dona dos olhos oblíquos. Não sabia se no fundo, ela precisasse de ajuda.

Só sabia que precisava fugir o quanto antes – um eterno mergulho na autocovardia.

Seu próprio castelo de fantasias estava superlotado.

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